Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Como é que eu vivo o carisma das Auxiliadoras ?

Faço parte de uma família religiosa que se chama “Auxiliadoras da Caridade”. É o nome que está gravado na palma das nossas mãos… e nas de Deus…
É o desejo de Deus para a nossa família religiosa à qual pertenço há 44 anos… esta parte do Corpo de Deus que É Amor e Caridade e que Ele deixou transparecer.
O objectivo parece um pouco louco! E no entanto, Deus precisa dos nossos corpos para Se dizer, Se dar, Se deixar tocar hoje.
Deus precisa dos nossos olhares, dos nossos ouvidos, da nossa criatividade para fazer compreender que Ele nos ama não importante o que possa surgir, que ouve os nossos gritos de pessoas feridas pela vida, que não cessa de inventar hoje e sempre, soluções para salvar o Homem.
Deus precisa de todos e de nós suas Auxiliadoras…
Fui enfermeira durante 40 anos… ao domicílio, em reanimação, no serviço de cirurgia, na ortopedia no Outão, depois, especializada na saúde pública, trabalhei durante 20 anos na câmara de Aubervilliers (França) nas suas 27 escolas primárias para “contar” a saúde às crianças, e no fim da minha carreira, tive a alegria de poder fazer uma formação no campo da Arte Terapêutica. Exerci esta minha profissão no Centro de Saúde num ateliê para as pessoas alcoólicas.
Actualmente, sou reformada, eu “retrato”, (reciclo) o que a vida me ensinou, no domínio da alfabetização com as mulheres oriundas do Marrocos, da Algéria, do Sri lança do Burkina Fasso…
Para as que não tiveram a sorte de aprender a ler nem a escrever, eu abri um ateliê de arte terapêutica no qual, se trocam muitas experiências sem palavras, simplesmente trabalhando a argila, fazendo pintura, fazendo colagens… suportes simbólicos que preparam a aprendizagem da escrita e a alegria de aprender a ler.
A beleza do que produzem, diz por si mesmo, a sua beleza… e eu, eu vejo a beleza de Deus.
Das suas mãos saem “trabalhos” que lhes abrem a porta da sua auto estima e o caminho da liberdade.
Realizo este trabalho. Inserida numa associação que se chama “Solidariedade, Formação, Mediação” que assegura, igualmente um trabalho de “escritores públicos” e de “apoio escolar”.
No quadro da Caritas, com um outro colega terapeuta, animamos um ateliê de Arte Terapêutica para uma dúzia de crianças.
Todos tiveram e terão, vidas difíceis com os meios que possuímos, procuramos desenvolver a sua criatividade ajudando-os a realizar até ao fim o projecto daquele momento, com materiais recuperados.
Neste momento, 3 rapazes constroem uma jangada com pedaços de madeira deixados numa obra. Esta jangada tem muito pouca possibilidade de um dia navegar no mar, mas o tempo que passam a pensar, a projectá-la, ensina-os a viver, a trabalhar em equipa, a procurar juntos, os gestos, a manobra eficaz para ligar de forma útil os pedaços de madeira que estão dispersos. A aventura fá-los sonhar e evadir-se do difícil quotidiano em que vivem.
Este retrocesso vivido numa certa agitação… mas também numa escuta e num respeito de si mesmo e pelo outro, oferece às crianças a ocasião de materializar os seus sonhos e ajuda-os a compreender que cada um é “alguém” aos olhos de todos.
A nós compete acompanhá-los na sua caminhada de “construção”
De um outro estilo, acompanho igualmente, uma comunidade de 6 irmãs de idade, Auxiliadoras da Caridade. Elas estão numa casa só para irmãs de idade e junto com elas estão 2 outras congregações.
“dar mais vida aos idosos”… é o que, juntas desejamos… elas ensinam-me o que significa “consagrar a sua vida… a Deus e aos outros… até ao fim”.
O avanço da idade, prepara-nos para o Face a Face… o que é que preciso deixar para começar, hoje esse Face a Face?
Em comunidade, num bairro popular em Clichy juntamente com 3 irmãs… cada dia “nós recomeçamos” uma vida fraterna de irmãs… filhas de um mesmo pai. Ele espera que nos deixemos “encher” d’Ele para que sejamos uma faceta do Seu Espírito.
É juntas que somos “missionárias contemplativas” com as nossas riquezas e fraquezas, nosso espírito de família e as nossas origens, as nossas diferenças e as nossas complementaridades, as nossas necessidades de ser salvas… vivemos num apartamento, no território onde o Padre Anizan, nosso fundador, fundou a 1ª paróquia dos Filhos da Caridade… se a população não é mais a mesma, a pobreza continua igual: desemprego, salários baixos, falta de habitação, os “sem papéis”, jovens sem trabalho, a solidão…
O Padre Anizan, poderia continuar a dizer hoje: “A nossa vocação é vasta e grande… ela adaptar-se-á às necessidades dos Homens…” Escritos Espirituais 271
“Quando a verdadeira caridade se apodera de uma alma pela Graça de Deus, ela não raciocina mais, ela ama, ela age, ela dá-se sem pensar em receber, é como que uma obsessão, uma forma de loucura, mas uma loucura divina, que a pressiona, a empurra, que lhe inspira mil invenções caritativas” QLC 34-35
Sim, para Se dizer hoje, Deus Amor, “Pai e Mãe” precisa de nós.
Juntas, falamos a Deus dos homens, mulheres, crianças, jovens dos nossos bairros e consagradas de mãos nuas, com o que a vida nos reserva… falamos de Deus aos homens, às mulheres, às crianças dos nossos bairros.

Ir. Anne Marie Tockert (AC)

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