Quarta-feira, 12 de Março de 2008

2008 - Ano Anizan

O ano de 2008 é para os Filhos da Caridade um ano de aniversários. No dia 1 de Maio de 1928, o nosso fundador, o P. Emílio Anizan, findou a sua vida entre nós, aos 75 anos de idade, depois de ter vivido intensamente dois grandes amores: Jesus e os pobres. Dez anos antes, a 25 de Dezembro de 1918, fundava os Filhos da Caridade, para que continuassem vivendo estes mesmos dois amores, em comunidade fraterna, como pastores do povo trabalhador.
Durante 2008, propomo-nos celebrar de maneira especial estes dois nascimentos, já que de nascimentos se trata, entre nós e com os nossos amigos e amigas, que são muitos, todos aqueles a que este servo de Deus e do povo de alguma forma nos irmana, muito especialmente as Auxiliadoras da Caridade, fundadas pelo P. Anizan, e as Fraternidades Anizan, laicos que compartem esta mesma espiritualidade.
Por um lado, queremos pôr em relevo a figura deste grande crente, convencidos de que a sua maneira de amar é mais pertinente e actual que nunca, de que a sua espiritualidade é uma dádiva para a Igreja e para o mundo de hoje, especialmente para esse mundo popular que ele adoptou como seu. E, por outro, revitalizar em nós, pessoalmente e como comunidade religiosa, a fonte espiritual que ele nos legou e da qual bebemos cada dia. Tudo com um profundo agradecimento.
Mas quem foi Emílio Anizan? Porque consideramos que é uma dádiva para a Igreja e para os pobres e trabalhadores?
Emílio Anizan nasceu a 6 de Janeiro de 1853 em Artenay, um pequeno povoado perto de Orleães, em França, no seio de uma família da pequena classe média. Já desde pequeno com uma forte experiência pessoal do amor de Jesus, descobre as duras condições de vida das famílias trabalhadoras, participando nas Conferências de São Vicente de Paulo, e mais tarde visitando uma fábrica de gás, perto de Paris. Pouco a pouco encaminha-se para o sacerdócio. Mas, na sua busca de entregar-se o mais possível a Deus e aos pobres, encontra uma pequena congregação recém fundada (os Irmãos de São Vicente de Paulo), dedicada às famílias pobres dos bairros populares, e com especial dedicação às crianças e aos jovens. E sem dúvida, era isso o que procurava: dar-se por completo a Deus através da vida religiosa e aos pobres pelo apostolado. Chama-lhe “o mal de Deus e o mal do ministério do povo”, como quem padece duma enfermidade incurável.
Durante anos trabalha sem descanso no bairro operário de Charonne, em Paris. Mais tarde, fá-lo no governo da sua congregação e participando activamente na reflexão e nas buscas apostólicas da Igreja de França no mundo operário e popular. Com muito pesar seu, a sua congregação vê-se envolvida em polémicas político-religiosas estéreis. A cruzada anti-modernista lançada pelo Papa Pio X arrasta-o e a todo o seu conselho. A congregação divide-se e muitos membros abandonam-na. E. Anizan vive a prova mais dura da sua vida, mas sem nunca perder a esperança, nem a confiança na Igreja, nem o amor aos pobres. Estamos em 1914. Marcha como capelão voluntário para o coração do sofrimento e do horror da guerra em Verdún. Finalmente, da cruz pessoal que nesses momentos ele partilha com os pobres, surge a vida: uma nova congregação de homens que vivam apaixonadamente o amor a Deus e o amor aos pobres e trabalhadores, como pastores em comunidade fraterna. O novo Papa, Benedito XV, não só aprova o seu projecto como o impulsiona, até ao ponto de poder ser considerado quase como co-fundador. Assim nascem em 1918 os Filhos da Caridade. Alguns anos mais tarde, em 1926, fundará com Teresa Joly as Auxiliadoras da Caridade, missionárias e contemplativas para o mundo operário e popular.
Tivemos a sorte de conhecer e de gostar do que o Senhor fez no coração e na vida deste homem: o seu amor, a sua proximidade aos pobres e aos que sofrem, o seu desejo de abrir-lhes o caminho para a fé e a esperança, a sua total confiança no amor de Deus, especialmente nos momentos de prova, a sua intimidade com Jesus, a sua maneira de orar, a sua experiência da ternura de Deus, expressada em Maria...
O seu ideal de amor, que encontra em Jesus Cristo, tem três rostos. P. Anizan chama-lhe “o nosso Triplo Ideal”: a santidade, a fecundidade apostólica e a evangelização dos pobres. Será a Carta Magna do novo Instituto. Assim o expressa ele mesmo em 1925:
“A santidade é percorrer o mesmo caminho que Jesus. O caminho que o Senhor propôs ao jovem rico do Evangelho: “Se queres ser santo vai, vende todos os teus bens, entrega o dinheiro aos pobres e segue-me.”
O apostolado é um dos principais traços da sua caridade, o seu fruto mais belo. É dar-se por inteiro a Deus, é imitar Jesus procurando a ovelha perdida no meio dos arbustos, aceitando a Paixão pela salvação das almas.
O Espírito Santo envia-nos a anunciar a boa nova aos pobres. Como Jesus, sirvamo-los até à morte. Nosso Senhor chamava pobres aos que ganhavam a vida dia a dia e cujo futuro era mais ou menos precário. Estamos destinados à aristocracia ao contrário, àqueles que ninguém procura nem deseja, aos que não têm nada”.
Seguindo o seu exemplo, os Filhos da Caridade, queremos percorrer esses mesmos caminhos no mundo em que nos calhou viver. Fazêmo-lo em comunidade fraterna, como sacerdotes ou irmãos, em paróquias de bairros pobres, acompanhando grupos de adultos e jovens trabalhadores, compartindo a vida de trabalho, como capelães de hospital ou de prisão… e em todos aqueles lugares onde possamos “reproduzir a Jesus o Bom Pastor, entre aqueles que andam vexados e abatidos, como ovelhas sem pastor”. Actualmente em doze países da Europa, América, África e Ásia.
O Padre Anizan morre a 1 de Maio de 1928. O seu corpo repousa na capela da casa dos Filhos da Caridade em Issy-les-Moulineaux, perto de Paris. Estas foram algumas das suas últimas palavras:
Deus meu, recomendo-vos todos os filhos que me haveis dado nesta nossa querida família religiosa dos Filhos da Caridade, e que tanto amei sempre. Impregnai-os de amor a vós e aos pobres; santificai-os, que permaneçam sempre fiéis ao espírito religioso e, sobretudo, ao espírito de caridade mútua, tão importante para vós; que coloquem acima de tudo a prática da verdadeira caridade. A nossa grande preocupação deve ser a de que Cristo se forme em nós.
José Miguel Sopeña
Superior General (FC)

0 comentários: