Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Experiência de Moisés


'A vida é feita de coincidências, quem sabe se o facto do sol se pôr e de uma flor murchar seja coincidência...outalvez não...talvez não existam coincidências. Talvez tudo o que nos parece um acaso seja uma oportunidade para ser feliz, para que tudo esteja lá, perfeito! Se as coincidências existem, podem virar a vida do avesso. Algumas pessoas aparecem e desaparecem do nosso caminho, como um pássaro que voa de pouso em pouso, sem se preocupar onde pára. Enquanto que outras aparecem também do acaso, mas, para nossa surpresa permanecem dias, semanas, meses, até anos. Quando menos esperamos existe alguém que passa por nós e, com um simples sorriso, com um olhar penetrante, com uma curta palavra, agarra-nos a mão e pede-nos para continuar o caminho ou até a corrida. Pessoas, como tantas outras, que poderiam significar apenas um 'nada' mas que ficam vincadas...simplesmente ficam. É deslumbrante como a vida nos consegue surpreender! De um dia para o outro, ela pode tornar-se outra, só porque alguém entrou nela. Especialmente quando a nossa capacidade de sonhar já não esté lá. Nesse momento eu tenho a certeza: não existem coincidências!'

Fruto do retiro - Crisma


'Tantas são as vezes que nos sentimos inuteis, que não sabemos o que fazer, onde nos refugiar, só porque não nos encontramos, não encontramos uma razão que explique o porquê da nossa existência. Até que, um dia nos propõem um desefio e largamos tudo sem saber se irá dar certo, mesmo assim arriscamos. Algo mexe connosco para que não desistemos. Uma força, uma esperança, uma luz. A verdadeira fé!'

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

LOURDES – CITE STº. PIERRE


Como chegamos tarde a Cité Saint-Pierre, onde ia decorrer o Encontro Europeu a comemorar os 90 anos da fundação Religiosa "Filhos da Caridade", e 80 da morte do seu fundador, fomos logo em peregrinação para a Basílica de N. Sª. Lourdes.
Esta Congregação Religiosa "Filhos da Caridade" foi idealizada/criada pelo Pe. Jean Émilie Anizan, (1853/1928) que mais tarde criou, juntamente com a Irmã Teresa Joly, em 1926 as "Auxiliadoras da Caridade".
Mais recentemente ( há 10/15 anos) foi criada a Fraternidade Anizan.
Estava-mos bem identificados, com uma facha amarela, que numa ponta tinha a palavra ANIZAN 2008 e noutra o FOGO (em formato de labareda) que simboliza o compromisso a Agir. Haviam vários cartazes com o rosto do Pe. Anizan com seu olhar sereno e de longo alcance... projectando o futuro duma Igreja no meio do povo pobre e trabalhador. É deste modo que vejo o Pe. Anizan.
Foi aberto pelo Superior Geral Pe. José Miguel (espanhol) e a Irmã Lise (franco/portuguesa) Superiora das Auxiliadoras da Caridade. Palavras profundas de identificação/reflexão seguido de, oração e cânticos acessíveis que todos sabia-mos. A participação foi total! O espaço era perto da Basílica de Lourdes, na margem no rio, circundava-nos grandes arvores, de copas verdes que nos proporcionava sombra. O sítio é lindo porque a natureza foi respeitada!
Regressamos a Cité para jantar e serem distribuídos os alojamentos. Aqui as coisas correram menos bem. Pareceu-me que a organização portuguesa, não estava organizada... Fiquei bem instalada com as senhoras do voluntariado sempre muito acolhedoras.
No refeitório todo o serviço era feito por pessoas que praticavam Voluntariado. Todos se respeitavam nas filas, religiosos e leigos, fosse qual fosse a responsabilidade neste grande Encontro. Houve uma brochura/livro que nos foi entregue para orientação das orações, celebrações, cânticos e trabalho de grupos.
Os trabalhos de Grupos foram organizados tendo em atenção a língua. O tema principal era a CARIDADE, caridade para com o próximo, aquele que sofre mais que nós, gente "fabricada" neste tempo, por políticas globalizadas e individualistas que fomentam sempre novos pobres. Estamos a criar sociedades sem valores, mais no TER do que no SER, que se reflecte depois nos valores morais, familiares e vocações. A Igreja, na minha opinião, não deixa de ter a sua culpa.... Senti que no meu grupo, as pessoas partilhavam mais a desilusão/dor na Igreja/Paróquia.
Os Encontros na Casa Pirâmide foram animados por um grupo de jovens, que motivavam á Festa. Era-mos contagiados com a alegria, mesmo não percebendo a língua. Creio que faltou um pouco mais de tradução, para nos sentirmos melhor integrados. Daqui saíam as orientações para o trabalho de grupos.
A Oração preparada pelos portugueses foi muito boa. O símbolo da LUZ onde circundava a palavra do fundador, SEJAM FOGO PARA DEUS impela-nos para a Frente para o Alto! Quanto à Celebração Campal, do sítio que estávamos posicionados ouviu-se mal, não deixando por isso de estarmos integrados com os cânticos e a leitura do Evangelho que foi em português.
Houve também, de todos os países, uma exposição de fotografias dando a conhecer os trabalhos realizados nos Bairros onde estão inseridos. Portugal estava representado pelas irmãs Auxiliadoras de Aveiro. Fomos presenteados com um lanche, sumos e bolos, que foi muito bom!
A Cité Saint-Pierre, é um lugar lindo! Criado por Deus, (como quando criou o Mundo) e Viu que era bom! Convida-nos a tudo! A reflexão, á proximidade a Deus na oração, ao passeio, á amizade e alegria do riso. É um pouquinho do Céu, na terra. Foi muito bem escolhido para congregar tanta gente com as mais variadas sensibilidades e formas de estar na vida! Parabéns.
A Celebração final, creio que coordenada pelo Pe. Michel, bem preparada/ordenada, espaço decorado com simplicidade onde sobressaía a frase: SEJAM FOGO PARA DEUS, escrito nas várias línguas presentes, ritoada com símbolos e gestos, integrando todos os países que participavam, assim como na Oração dos fieis. Aqui, foi comovente o testemunho duma participante!
Presidida pelo Superior Pe. José Miguel, chamou-me a atenção na homilia falar nas três línguas. Uma gentileza para com todos, que certamente lhe exigiu maior esforço e atenção. Creio que ninguém se sentiu de fora. As Leituras e os Cânticos eram acessíveis a toda a Assembleia.
Mais uma vez a jovem animadora conseguiu congregar todas os presentes para a participação, com alegria e Esperança numa outra Igreja que se foi perdendo...
O cartaz do Pe. ANIZAN estava presente. Tive a sensação que o seu sorriso era de felicidade por tentarmos compreender a dimensão do seu projecto de Vida! Um sorriso terno de mãe, que, tanto nos faz falta, neste tempo que vivemos dentro duma igreja cada vez mais voltada ao passado... a celebrações monotonas, sem vida vivida, nem projecto...
Meu coração transbordava de alegria por ter participado e vivido esta Celebração. O meu empenhamento/compromisso na igreja que pertenço, será mais sólido, mais profundo, mais exigente, porque não se vive em vão, momentos de Glória!
Saímos do espaço da Celebração, e num sítio já preparado, plantou-se uma Arvore, (creio que Magnólia, cujas flores nascem primeiro que a folha...), dela crescerão raízes a fortificar a relação de todos para com a Igreja/Mundo, deixando simbolicamente a nossa presença em Cité Saint-Pierre! Cantamos o Grândola Vila Morena - Terra da Fraternidade!
Dou Glórias a Deus por este dia! É necessário Celebrações que nos sacuda e que nos desinstale. Que a MESA seja participada/partilhada com todos, e para todos. Só assim as Celebrações têm sentido.
A noite recreativa foi participada por todos realçando o convívio, a alegria da Festa.
Momento alto; o Grupo "voador". Depois, a Oração/Leitura também com gestos dum duo "voador", momento de silêncio/meditação. Foi lindo! Mais uma vez houve pouca tradução para quem não dominava a língua...
Pessoalmente, bem digo a participação neste Encontro. Deixou marcas profundas na minha vida e Fé. Nesta forma de ser Igreja, eu comprometo a vida.
Tanto a viagem de ida e regresso correu bem. O motorista simpático, gentil e participativo.
Ficamos sempre bem instalados.
Os tempos recreativos dentro do autocarro, deixou muito a desejar. Desceu-se á raia da indecência. Em nome de Nossa Senhora se fazem peregrinações, reza-se Terços, Mistérios Gloriosos. Logo a seguir um churralho de anedotas, sempre de mulheres e sexo. Serão estas peregrinações a Nossa Senhora e Bernardet que as Honra, e que nos honra?
Consigo ultrapassar esta bagunçada. E os outros, aqueles que estão a descobrir testemunhos numa nova Igreja?
Claro que houve quem se riu. A religião populucha é assim! Assim se cativa a popularidade pessoal... E veio isto tudo dum Pe. da Congregação que na minha opinião não interiorizou o carisma da viagem. Se os outros disseram alguma coisa? Não! Até ia lá o superior português!
Houve um padre que quando deu o testemunho, acabou assim: "eu também sei uma anedota, só uma, mas só a conto quando estiver bêbado.... Quem tem ouvidos, que oiça....
Opinião final: Tirando a última parte, foi um Encontro muito positivo, bem trabalhado, que nos deixa motivados para AVANÇAR, comprometendo-nos na partilha, mudarmo-nos e ajudar a mudar este mundo, na solidariedade, justiça pela verdade e CARIDADE, sem caridadezinha. Não fabriquemos os nossos pobres, para fazermos caridade!
A todos quantos organizaram/trabalharam para este Encontro, e neste Encontro, o meu MUITO OBRIGADA.

Maria da Conceição Cunha

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Como é que eu vivo o carisma das Auxiliadoras ?

Faço parte de uma família religiosa que se chama “Auxiliadoras da Caridade”. É o nome que está gravado na palma das nossas mãos… e nas de Deus…
É o desejo de Deus para a nossa família religiosa à qual pertenço há 44 anos… esta parte do Corpo de Deus que É Amor e Caridade e que Ele deixou transparecer.
O objectivo parece um pouco louco! E no entanto, Deus precisa dos nossos corpos para Se dizer, Se dar, Se deixar tocar hoje.
Deus precisa dos nossos olhares, dos nossos ouvidos, da nossa criatividade para fazer compreender que Ele nos ama não importante o que possa surgir, que ouve os nossos gritos de pessoas feridas pela vida, que não cessa de inventar hoje e sempre, soluções para salvar o Homem.
Deus precisa de todos e de nós suas Auxiliadoras…
Fui enfermeira durante 40 anos… ao domicílio, em reanimação, no serviço de cirurgia, na ortopedia no Outão, depois, especializada na saúde pública, trabalhei durante 20 anos na câmara de Aubervilliers (França) nas suas 27 escolas primárias para “contar” a saúde às crianças, e no fim da minha carreira, tive a alegria de poder fazer uma formação no campo da Arte Terapêutica. Exerci esta minha profissão no Centro de Saúde num ateliê para as pessoas alcoólicas.
Actualmente, sou reformada, eu “retrato”, (reciclo) o que a vida me ensinou, no domínio da alfabetização com as mulheres oriundas do Marrocos, da Algéria, do Sri lança do Burkina Fasso…
Para as que não tiveram a sorte de aprender a ler nem a escrever, eu abri um ateliê de arte terapêutica no qual, se trocam muitas experiências sem palavras, simplesmente trabalhando a argila, fazendo pintura, fazendo colagens… suportes simbólicos que preparam a aprendizagem da escrita e a alegria de aprender a ler.
A beleza do que produzem, diz por si mesmo, a sua beleza… e eu, eu vejo a beleza de Deus.
Das suas mãos saem “trabalhos” que lhes abrem a porta da sua auto estima e o caminho da liberdade.
Realizo este trabalho. Inserida numa associação que se chama “Solidariedade, Formação, Mediação” que assegura, igualmente um trabalho de “escritores públicos” e de “apoio escolar”.
No quadro da Caritas, com um outro colega terapeuta, animamos um ateliê de Arte Terapêutica para uma dúzia de crianças.
Todos tiveram e terão, vidas difíceis com os meios que possuímos, procuramos desenvolver a sua criatividade ajudando-os a realizar até ao fim o projecto daquele momento, com materiais recuperados.
Neste momento, 3 rapazes constroem uma jangada com pedaços de madeira deixados numa obra. Esta jangada tem muito pouca possibilidade de um dia navegar no mar, mas o tempo que passam a pensar, a projectá-la, ensina-os a viver, a trabalhar em equipa, a procurar juntos, os gestos, a manobra eficaz para ligar de forma útil os pedaços de madeira que estão dispersos. A aventura fá-los sonhar e evadir-se do difícil quotidiano em que vivem.
Este retrocesso vivido numa certa agitação… mas também numa escuta e num respeito de si mesmo e pelo outro, oferece às crianças a ocasião de materializar os seus sonhos e ajuda-os a compreender que cada um é “alguém” aos olhos de todos.
A nós compete acompanhá-los na sua caminhada de “construção”
De um outro estilo, acompanho igualmente, uma comunidade de 6 irmãs de idade, Auxiliadoras da Caridade. Elas estão numa casa só para irmãs de idade e junto com elas estão 2 outras congregações.
“dar mais vida aos idosos”… é o que, juntas desejamos… elas ensinam-me o que significa “consagrar a sua vida… a Deus e aos outros… até ao fim”.
O avanço da idade, prepara-nos para o Face a Face… o que é que preciso deixar para começar, hoje esse Face a Face?
Em comunidade, num bairro popular em Clichy juntamente com 3 irmãs… cada dia “nós recomeçamos” uma vida fraterna de irmãs… filhas de um mesmo pai. Ele espera que nos deixemos “encher” d’Ele para que sejamos uma faceta do Seu Espírito.
É juntas que somos “missionárias contemplativas” com as nossas riquezas e fraquezas, nosso espírito de família e as nossas origens, as nossas diferenças e as nossas complementaridades, as nossas necessidades de ser salvas… vivemos num apartamento, no território onde o Padre Anizan, nosso fundador, fundou a 1ª paróquia dos Filhos da Caridade… se a população não é mais a mesma, a pobreza continua igual: desemprego, salários baixos, falta de habitação, os “sem papéis”, jovens sem trabalho, a solidão…
O Padre Anizan, poderia continuar a dizer hoje: “A nossa vocação é vasta e grande… ela adaptar-se-á às necessidades dos Homens…” Escritos Espirituais 271
“Quando a verdadeira caridade se apodera de uma alma pela Graça de Deus, ela não raciocina mais, ela ama, ela age, ela dá-se sem pensar em receber, é como que uma obsessão, uma forma de loucura, mas uma loucura divina, que a pressiona, a empurra, que lhe inspira mil invenções caritativas” QLC 34-35
Sim, para Se dizer hoje, Deus Amor, “Pai e Mãe” precisa de nós.
Juntas, falamos a Deus dos homens, mulheres, crianças, jovens dos nossos bairros e consagradas de mãos nuas, com o que a vida nos reserva… falamos de Deus aos homens, às mulheres, às crianças dos nossos bairros.

Ir. Anne Marie Tockert (AC)

A minha vida no trabalho


A nossa vida de Auxiliadoras da Caridade é também: “Partilhar a condição de todos os que vivem dia a dia do seu trabalho”.


Tive a sorte de, desde o inicio da minha vida religiosa, ser enviada em missão no mundo do trabalho, para partilhar as mesmas condições dos trabalhadores, e ganhar o nosso salário, para descobrir e testemunhar da bondade de Deus na nossa vida de cada dia. Trabalho nesta empresa de importação e exportação, desde 1990. Aqui já vivi o despedimento, depois empregaram-me novamente e no ano 2000, a empresa fundiu-se com outra empresa do mesmo ramo e eu pensei ficar tranquila até à minha reforma.


No entanto, desde o mês de Fevereiro deste ano, que vivemos a privatização do grupo do qual a minha empresa pertence. Sabemos que a privatização é uma ameaça para o desemprego em nome da economia. Dentro do grupo, somos 200 empregados em França e, cerca de 1800 empregados nas fábricas de algodão e de óleo na África.


Gosto muito do meu trabalho, é um trabalho que me apaixona e que me deixa muito feliz, porque partilho diariamente com pessoas de diferentes países, quer por telefone, e-mail. Estou ligada, permanentemente, ao resto do mundo, como por exemplo, ultimamente acompanhei as manifestações do Burquina Fasso, nos Camarões e no Tchad.


Depois de tanto dar das minhas forças e do meu saber, tenho um sentimento de injustiça de quem se sente comprado… comungo com todos os que vivem o mesmo cada dia na sua própria pele. Cada vez que ouço nas notícias o encerramento de uma empresa, fico mal, sofro muito com isso. Todos estes acontecimentos fazem parte da minha vida de oração e com frequência pergunto: “até quando Senhor os homens e mulheres são jogados fora das empresas?”


Vivo esta condição diariamente com os meus colegas de trabalho sem fugir às minhas responsabilidades. Ser a orelha que escuta, não “apagar a chama que fumega”, transmitir um conselho, e por vezes calar-me e simplesmente escutar o sofrimento que se partilha e que vem de longe… desde que foi anunciado a venda da empresa e o despedimento de alguns, deixámos um pouco de lado as nossas divergências no escritório para deixar lugar à partilha. Mobilizamo-nos para nos mantermos informados, para nos prepararmos para a entrevista com as auditorias.


Um colega partilha connosco: “Como é que vou viver se sou despedido? Não quero reviver todo o sofrimento que vivi durante anos”. A incerteza é demasiado pesada durante este período de espera.


Um outro colega diz: “Vão ver, agora é cada um por si, cada um a procurar salvar a sua pele.” Um outro responde: “Cada um por si e Deus por todos!” e um outro diz: “Se não acreditamos em Deus o que nos resta? Acreditar em si mesmo”, remata.


Desde a época do Padre Anizan, é verdade que o contexto social e laboral mudou, o planeta tornou-se uma aldeia e o que se vive aqui em França tem repercussões nos outros países e vice-versa…


Anizan dizia: “A vítima actual, é o nosso pobre povo. Penso no povo que trabalha e que sofre nas nossas cidades e nos campos. Um povo demasiado abandonado por alguns! Sem dúvida que o nosso povo está bastante desfigurado, mas no meio desta multidão de aspecto rude… quantas pérolas preciosas, quantos … sou todos os dias, testemunha disso!”


Sim, encontrei e encontro ainda no mundo do trabalho tesouros com os colegas que se dizem longe da Igreja, mas que têm um sentido justo da verdade, do respeito, reconhecendo-me como uma colega com eles.


Vivi um combate de muitos anos juntamente com um colega. No ano 2000, no momento da fusão da empresa, houve muitos despedimentos dos quais a sua esposa e ele detestava-me, porque eu tinha ficado. Ele nunca pronunciava o meu nome, eu não existia para ele. À força de lhe dizer todos os dias bom dia pronunciando o seu nome, de o reconhecer como pessoa, acabámos por nos aproximar um do outro. E há um ano para cá, ele diz-me todas as manhãs: “Bom dia Maria Teresa”. Sim, muitas vezes redigo a frase: “o coração do homem é complicado e doente, quem o pode conhecer? Sim, és Tu Senhor que conheces o coração de cada um.” Deus é maior que o nosso coração. O Padre Anizan dizia: “A bondade é o mais belo ornamento da caridade”…Traduzo-o pela escuta, pela atenção, pela proximidade, compreensão, combate.

Ir. Marie-Thérèse LE FUR (AC)

A oração na minha vida


O tempo de oração, de contemplação antes de começar o meu dia de trabalho de enfermeira no hospital.
É essencial remeter o meu dia diante de Deus para o viver com Ele.
Para mim, é uma forma de viver o amor por Deus e pelo povo.
É ser um pouco as Suas mãos, o Seu coração e sobretudo o Seu olhar por cada pessoa que encontro: os doentes, os colegas e também com as minhas irmãs de comunidade.
A greve vivida durante 2 meses, no hospital de Avicenne, fez parte de uma luta por melhores condições de tratamento dos doentes e por um verdadeiro serviço público e solidário com os mais desfavorecidos, os que têm um trabalho mais precário e que aspiram a ter um trabalho de longa duração e a ter um salário para viver um pouco melhor.
Olhar cada um com os olhos de Deus.
Escutar os gritos, as aspirações dos que lutam e tê-los presentes na oração.
Nada é pequeno nas nossas vidas, todo pode ser ocasião de servir Deus.
É na contemplação de Deus no coração da vida de todos os que encontro, que faço a experiência de um Deus Amor.
Mas também pode acontecer, que a dureza da vida, as tensões, as provas, sejam de tal forma fortes que tornam difícil a contemplação; é a noite da fé.
Mas uma noite onde procuramos a Luz, a Esperança…
Onde temos a certeza da fidelidade de Jesus Cristo que está sempre connosco.
Santa Teresa de Jesus dizia: “Nada te perturbe, só Deus basta!”


Ir. Babeth (AC)

A minha viagem a Lourdes


Quando há alguns meses me convidaram para ir a Lourdes integrada numa peregrinação que celebrava o ano Anizan, respondi sim.
Sabendo eu que Emílio Anizan foi um padre que fundou os Filhos da Caridade e as Irmãs Auxiliadoras da Caridade fui para Lourdes para procurar saber mais sobre este homem que dizia que Jesus e os pobres foram os seus dois grandes amores.
Costumo partilhar com as Irmãs Auxiliadoras da Caridade, os problemas das crianças e das suas famílias, que como nós moram no bairro de Santiago em Aveiro.
Neste meu partilhar de problemas tenho me apercebido, que no tratamento feito
a estas pessoas necessitadas de muitas coisas, é feito um acompanhamento sem julgamento, carinhoso e continuado, ficar contente com cada passo que se consegue dar em frente.
No dia marcado lá partimos acompanhados de outros, que também disseram sim, do Lavradio, de Guilhufe, de Mogege e de Joane.
Chegamos á cidade são Pedro em Lourdes ao fim de tarde do dia seguinte, um lugar paradisíaco gerido pela cáritas, um espaço de serra muito arborizado e relvado, com as casinhas onde ficamos instalados espalhadas no espaço, pavilhão de reuniões, auditório, refeitório, parque de campismo, onde ficaram os nossos jovens, tudo isto gerido por voluntários.
Durante quatro dias vivemos neste espaço uma partilha de emoções, éramos perto de 500 os participantes desta comemoração do ano Anizan, identificados por uma faixa amarela que nos tornava irmãos mesmo sem nos conhecermos nem sabermos falar a língua uns dos outros.
Tivemos vários encontros durante os quatro dias, procurei estar em todos, foi lindo de ver como todos nos sentíamos envolvidos, todos cantaram, rezaram, e participaram mesmo que a língua em que o faziam não fosse a sua.
Gostei muito quando foi Portugal a preparar a Oração da manhã, senti que os participantes dos outros países também gostaram, conseguimos envolver as pessoas com a nossa apresentação da “Contemplação”.
Gostei muito da partilha de experiências que fizemos em grupos, é bom saber que há realidades nas vidas de cada um, diferentes das nossas.
A eucaristia de encerramento foi o culminar de toda a partilha, crianças, jovens e representantes de todos os países presentes foram envolvidos, foram momentos de emoções fortes, onde se demonstrou neste espaço, que é possível sermos todos iguais cada um respeitando as diferenças dos outros.
Terminado este nosso encontro regressamos a Portugal, eu acho que cada um voltou diferente do que foi, quando mais não seja se interrogando se estaremos nós a amar os outros que se nos dirigem, pedindo ajuda.

Lurdes Correia

Reforço de Esperança

Foi nos dias três a nove de Agosto de 2008 que tivemos o privilégio de participar na peregrinação a Lourdes convidados pelas nossas amigas Auxiliadoras da Caridade, integrada nas comemorações dos 90 anos da fraternidade Anizan e 80 da morte do seu fundador Padre Anizan.
Esta experiência foi muito enriquecedora para nós. Permitiu-nos conhecer melhor a mensagem do P. Anizan e o trabalho desenvolvido pelas Irmãs e Filhos da Caridade no meio dos mais pobres. A alegria, a dedicação, a esperança e o amor ao próximo que nos transmitem é para nós presença de Jesus Cristo na terra.
Também nos possibilitou reflectir, questionar e avaliar a nossa vida como cristão no meio onde estamos inseridos e dar graças a Deus e a nossa Senhora de Lourdes pelas graças que nos tem concedido.
O convívio entre as pessoas das várias dioceses que viajaram connosco no autocarro foi muito agradável. Logo no primeiro dia o P. José Manuel propôs fazermos o jogo do “amigo secreto” que permitiu uma grande aproximação entre as pessoas, conhecer melhor as suas vidas e opiniões e a forma de ver as coisas. Foi um verdadeiro aprofundar da fé e esperança nos outros.
No final da viagem ficou a saudade, as lágrimas e as promessas para novos encontros.

Joaquim e Lurdes Azevedo
Joane-Vila Nova de Famalicão

Peregrinar de Portugal a Lourdes


PEREGRINAR DE PORTUGAL A LURDES
(Descantes)
Peregrino:

Rumei a Lurdes, com Maria
Celebrando a Caridade, Amor-Perfeito:
Verdade suprema e o Caminho feito
No Senhor Jesus, a Vida!
Vida bem Simbolizada no painel
Da perene multiplicação,
Do peixe e do pão,
Exposto onde partilhámos o farnel…
Bebemos, também da Fonte divina
Que transbordou em Maria de Nazaré
E saciou Bernardete no Amor e na Fé!
A Vidente, tão jovem
Espelho de qualquer homem…
Sacia multidões com seu testemunho
Mais que a torrente do Gave.

Rio Gave:

Desde quando sou o Rio Gave?
Há milénios… sou Bênção de Deus,
E, aqui, eu testemunho e garanto
A muita alegria, a imensa Bondade
Descida dos céus,
Como eu desço dos Pirinéus!
Mas a minha torrente
Não terá uma virtude igual
Às águas nascentes de Portugal?
Tal-qualmente as dos lagos
E mares de qualquer Continente?
É que, diz o Génesis, sobre as águas
Paira o Espírito Divino!
Sabes tu, Peregrino?
Minha água é vida e é símbolo
Da Virtude que jorra do teu íntimo!

Vidente:

Quanta água de ti eu bebi
Meu querido Rio Gave
Mas por muito que te gabe
A maior frescura de todo meu ser
Nasceu em fonte de água mais pura…
Eu, sendo cristã, era triste criatura?
Era bicho do mato?
Sujeita a mau-trato?
Candidata a mulher,
Como outra qualquer?
Sim… Sou Mulher como bem soa!
E… eu, Bernardete, sou grata
Pois fui por Maria honrada.
Sabes tu, Peregrino, porquê?
“Ela me olhou como uma Pessoa”!

Pagode:

Mulher solteira, mulher casada,
Mulher viúva, mulher descascada,
Mulher de mil-e-uma noites, ui,
É coisa apetecida…
Até onde eu já fui!
Usufruída no lar, no trabalho;
E na parte do sexo,
Gozada sem critério e sem nexo!
Mas… tudo é brincadeira, “amores”!

Peregrino:

Ah! “Pagode” sem critério,
Sem ponta de culto sério!
Ah! “Pagode” sem freio
Que asperges de águas turvas
Quem te aparou no parto
E te forneceu o primeiro prato
E te incutiu as primeiras letras
E te abriu, para a Comunidade, as portas…
Como envolves mãe, irmãs e companheiras
Num chorrilho de tretas?
E o pudor, como e porque o enterraste?
Que o salmo 51 (50) te arraste!
Lembro - “Memento homo”:
Sem Mulher chega o homem a ser pessoa?!
Em Lurdes, 150 anos atrás,
Numa troca de olhares…
Entre Mulheres
A mulher da terra como percebeu A do Céu?
“Ela me olhou como uma Pessoa”!

Pagode:

É por mal, que falo de mulheres?
Dizem que trabalham mais que nós:
Nos lares e mais nas profissões;
Que nos igualam, até, nas habilitações,
Que nos dão cartas na lei dos afectos
E que vão menos em futebois,
Que vão subindo em públicos cargos
Apesar de tragos amargos!
Ai … meus senhores…
É por mal que falo de mulheres?

Peregrino:

Isso, “Pagode”, é escrito sem tinta;
O que dizes não se escreve, nem pinta.

Vidente:

Louvo Santa Maria de Lurdes:
“Ela me olhou como uma Pessoa”, e daí
Mais crente e como gente me senti!
Passei a cantar o “Magnificat”
Com essa Mãe de toda a Humanidade
Pelo abatimento dos indecorosos,
Pelo levantamento dos humilhados,
Pela Dignificação de todas, de todos,
Pela fraternidade, e pela igualdade!
Para louvor e glória da Divindade
Até à eternidade;
Esta… que já muito bem senti !!!

Peregrino:

Ámen! Ámen!
Desta peregrinação regressei ao meu canto
Mas… terminar de peregrinar? Nem tanto!
Santa Bernardete, Santa Maria Virgem
Orai e peregrinai comigo, nesta “viagem”:
De terra em terra, com cruz e alegrias,
Com surpresas e esperanças, tantas,
Marcado por meus pecados e benfeitorias
Para que, e até que, me junte a vós, Santas!

Padre Rolando Simões

Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Anizan

Numa época onde tudo vai à alta velocidade desde as mudanças da nossa sociedade até à Internet, podemos perguntar porque é que um homem, o Padre Anizan, que viveu há 80 anos é importante para nós, Auxiliadoras da Caridade??
Unicamente porque é o nosso fundador e o Fundador dos Filhos da Caridade ? Claro que não, seria lembrarmo-nos só do passado !
Ora, se o P. Anizan e os seus escritos são importantes para nós, hoje, é porque a sua mensagem fala-nos dos desafios que enfrentamos no nosso dia-a-dia, tal como no seu tempo.
Cheio de confiança em Jesus que disse « peçam e receberão », o P. Anizan pede 3 coisas :
· « Concedei-me de ser inteiramente para Vós
· De trabalhar muito e com fecundidade ao Vosso serviço
· De conhecer a Vossa vontade e de a seguir »
Se fizermos esta mesma prece, temos aqui a nossa vocação de missionárias-contemplativas… Mas esta prece não será válida para todos os que tomam a peito o anúncio da Boa Nova???
Ser inteiramente de Deus
« Sejam de fogo para Deus » …A meta é a Gloria de Deus-Trindade … « Para Ela, quero respirar e viver, trabalhar e converter-me, quero viver e morrer »
O Pe. Anizan está convencido que o nosso mundo só será salvo pela caridade seguindo Jesus « Caminho, Verdade e Vida »
Trabalhar muito e com fecundidade ao Vosso serviço
O P. Anizan deixou-se tocar profundamente pela miséria do povo trabalhador da sua época. Quis ser o apóstolo de todos os que não são reconhecidos na sua dignidade de filhos de Deus :
« A verdadeira vítima dos nossos tempos, não é a Igreja, é o nosso povo ! » Povo que precisa conhecer a Boa Nova libertadora de Jesus para guardar viva a Esperança duma vida mais justa e fraterna !
Irmãs no meio dos irmãos, como o diz o Pe. Anizan, saibamos ver as pérolas preciosas, os recursos de solidariedade, de coragem na adversidade, de perdão dado e recebido, o poder de criatividade, o convívio nas festas…São os alicerces para o povo reconhecer o valor do seu trabalho, ser liberto do sofrimento do desemprego devido às escolhas dos poderosos, ser liberto dos medos e do desânimo…São os alicerces para acolher o Evangelho com toda a sua força transformadora !!
Conhecer a vontade de Deus e segui-la
Do inicio até ao fim da sua vida, o P. Anizan perguntou “Senhor, o que queres que eu faça ??”
« Amar, só me sinto feito para isso »
“Após Deus, o meu coração pertence aos deserdados »
Como Bom Pastor, Jesus disse « Dei-vos o exemplo, fazei como Eu fiz… », vão ao encontro de todos os que precisam, não fiquem à espera deles nas sacristias, sejam os irmãos e as irmãs com quem eles podem contar…
E o P. Anizan acrescenta “Não temos bastante ousadia, não somos bastante imprudentes, é necessário ir ter com o povo!”
Então Senhor, ouve a nossa prece unida à prece do P. Anizan “A tarefa é grande, a messe está madura…O campo, Deus há-de abri-lo…!”
Mas, o Senhor sempre quis precisar de cada um de nós para concretizar os Seus desígnios...
Portanto, sabendo que nunca nos abandonará, mãos à obra ???


Ir. Lise Cruveiller
Superiora Geral (AC